Entrevistas

Revelações de Ana Carolina




Quando surgiu com o seu primeiro CD, em junho de 99, o que os jornalistas perguntavam era quem é essa moça e de onde veio?. Recebi o primeiro CD da cantora, sendo informado que ela era novata e que vinha de Juiz de Fora. Como sempre surge gente nova querendo entrar no mundo da música, o negócio é ouvir o disco com atenção para ver do que se trata. Felizmente aconteceu algo que não é freqüente e que transforma o trabalho cotidiano de ouvir novos CDs em algo realmente gratificante. Percebi que o CD de Ana Carolina é daqueles que pede para ser tocado mais vezes daqueles que entram para a lista dos favoritos.


Os Atributos de Ana Carolina

Depois da grata e surpreendente qualidade musical revelada no CD, resta a satisfação de trocar idéias entusiasmadas com alguns colegas jornalistas sobre a moça. Que ela tem uma voz bonita, grave e muito forte e com recursos técnicos muito desenvolvidos, com grande alcance, improviso de vocalises etc. Que o violão dela e as guitarras são tocados de forma impressionante assim como a voz, as cordas tem muita força, clareza e muito ritmo. Que ela toca pandeiro de forma surpreendente. E que as primeiras composições apresentadas não parecem coisa de novata. São músicas já maduras, em letras, arranjos, harmonias... E que sonoridade.


Uma Artista em Perspectiva

Depois da surpresa e das devidas apresentações, surge a oportunidade do breve encontro com Ana Carolina para falarmos sobre tudo, ou quase tudo, em sua música, sua carreira, sua história, seu primeiro CD e outros assuntos que surgem independente do que se pretende perguntar dos rumos da conversa. O resultado é muito interessante. Com o bate-papo, o disco ganha mais vida ganha muita personalidade e indícios de uma carreira promissora.





Origem & Carreira




  
Nasce uma Compositora






O Amigo Violão







                                      Origem & Carreira





UpToDate
Você é de Juiz de Fora, Minas Gerais?
Ana Carolina
“Sim.”
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Como começou o teu envolvimento com a música?
Ana Carolina
“Eu tenho seis anos de carreira. São seis anos que podem parecer pouco mas, enfim, eu já fiz coisas do arco da velha.”
UpToDate Tipo o que, por exemplo?
Ana “Ah, tipo coisas curiosas... Eu já abri o show do Ray Conniff (1916-) e orquestra, em Minas Gerais. É um convite que você não pode deixar de fazer. Já toquei em lugares para quatro pessoas, e em lugares para três mil pessoas. Em coisas que no caminho você vai aprendendo a se impor, postura de palco. Eu já fiquei em hotéis maravilhosos, mas já fiquei em lugares que só tinha uma rede para dormir. Até um certo tempo da carreira, fica tudo muito inconstante.”
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Você começou a se apresentar em Juiz de Fora?
Ana
“Comecei em Juiz de Fora – daí apareceram convites para ir  rodando  toda a região de Belo Horizonte e  Minas, região serrana,  Itaipabararas, Búzios, Cabo Frio – fiz bastantes shows.  Até  ir para o Rio e fazer um show no Hipódromo e depois no Mistura Fina, onde estava lá a filha do Vinícius de Moraes, a Luciana de Moraes. Ela disse “olha, eu não sou caça-talento, mas eu queria saber se você tinha alguma demo”. Eu tinha uma demo com voz e violão, umas sete músicas – que hoje estão no meu disco.
Aí, depois de quinze dias, já estava tudo certo. Eu já tinha assinado  contrato  com a  BMG e tive uma  liberdade muito  grande de  trabalhar no disco e  atuar em todas as áreas, embora estivesse muito bem acompanhada com o produtor Nilo Romero, com grandes músicos, com Gringo Cardia fazendo a capa do CD.  É preciso que num primeiro trabalho como esse, você atue e se imponha e mostre o que você realmente quer a todas as pessoas, para que o trabalho saia como você gostaria que saísse.”
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Nasce Uma Compositora

UpToDate
Você compôs quase todas as músicas do teu CD. Há quanto tempo você é compositora?
Ana
“Eu tinha muitas letras já prontas e algumas idéias. Mas, para uma pessoa que vinha fazendo shows como intérprete, cantando Edu Lobo, Chico Buarque, Tom Jobim – fica difícil na hora de compor. Pinta muito grilo como ‘isso não presta, não isto não está bom’ – porque o meu ponto de referência são compositores tão maravilhosos que, por complexo, eu não mostrava as minhas músicas.”
UpToDate
 Mas você cantava as suas músicas em shows?
Ana
“Não, nunca. Até que chegou no processo do disco e me deu uma auto-estima e fiz uma demo com algumas canções minhas. Daí eu mostrei ao Jorge Davidson e ele disse ‘muito bom, vamos colocar no disco’. E o Nilo Romero também escutou, e as pessoas foram me massageando o ego de uma certa forma que até então eu não sentia tanta firmeza.
São cinco músicas no disco. As quatro que mostrei a eles, e a última que eu fiz sozinha, acreditando já em mim como compositora foi “Armazém”. É a música que eu fiz um arranjo de pandeiros e chamei o Marcos Suzano para fazer um dos pandeiros. Colocamos umas vozes de funk com embolada – eu gosto muito. Então, hoje eu acredito que sou uma compositora, cantora, intérprete – inclusive no próximo disco devo apresentar mais composições minhas.”
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Antes do teu disco, você era apenas intérprete. E com o seu disco você já aparece como compositora de potencial.
Ana
“É, as pessoas sempre se surpreendem quando descobrem isso.”

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O Amigo Violão

UpToDate Com que idade você começou a tocar violão?
Ana “Ah, isso é um fato interessante. Eu só canto porque toco. Sempre gostei mais de tocar. Até hoje, eu costumo pegar o violão em casa e tocar horas. Até que aparece alguém e diz ‘dá para você cantar alguma coisa?’.”
UpToDate Qual é o teu estilo de tocar violão? E com que idade você começou a tocar?
Ana “Eu comecei a tocar com 11, 12 anos mais ou menos.”
UpToDate Você fez escola?
Ana “Não, nem para cantar. Eu sou uma autodidata, que é melhor até para você sair um pouco das formas, fica mais intuitivo, mais fácil para se compor.”
 UpToDate
O teu jeito de tocar violão é algo que chama muito atenção, com batidas fortes, secas, puxando bem as cordas, com batidas compassadas. Fala um pouco sobre esse jeito bem próprio de você tocar violão?
  Ana “É muito forte a minha personalidade ela parte do instrumento, do violão. Daí também a facilidade de arranjar. Eu fiz os arranjos das doze faixas no disco porque eu toco. Eu não levei os músicos ao estúdio e começamos a gravar as músicas. Não. Nós fomos a um estúdio de ensaio, eu o Suzano, o Sacha, o Tunga ensaiamos as músicas todas em cima do violão. Você escuta a demo e depois escuta o meu disco, você vai perceber que está todo mundo tocando aquilo que eu estou dizendo no violão.”

UpToDate
Os arranjos partem do violão.
Ana
“Sim, até nas paradinhas e nos mínimos detalhes, introduções é tudo muito calcadinho no violão. E que bom, porque o violão sempre foi muito importante para mim e para a personalidade do meu trabalho.”
 UpToDate
É curioso que no Brasil, um país tão rico em cantoras, tenha tão poucas que toquem violão, e toquem bem assim.
Ana
“É verdade. Mas é devido a esse tempo todo que eu venho tocando e esse gosto por violão. Quando você gosta de uma coisa, parece que fica seu. Eu gosto de me ouvir cantando com aquilo que eu faço no violão.”

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Você deixa o violão dialogar com a tua própria voz... Mas você também toca guitarra.
Ana Eu fiz guitarras em “Alguém Me Disse”, “Retrato em Branco e Preto”, “Perder Tempo Com Você” executei algumas guitarras ali. Eu gosto muito de guitarra. Nesses cinco anos, eu venho tocando sempre sozinha. Então eu comecei tocando violão, e depois resolvi tocar violão de aço, guitarra, aprendi a tocar pandeiro e o show foi ficando cada vez mais rico de timbres. Não dava para ficar fazendo um show inteiro só com violão de corda de nailon. Eu queria fazer uma coisa mais folk, mais agressiva.
Até saiu uma crítica na Folha de S.Paulo, no Folhateen que eu morri de rir. O jornalista falou que ‘nenhum homem no Brasil toca guitarra tão pesado’. Ele disse que eu sou como a Liz Phair, que sou super-talentosa, e que eu devo perder tempo ouvindo clássicos da música popular brasileira (rindo).”

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Pandeiro & Novela



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Mas você toca pandeiro muito bem também. O que o Marcos Suzano acho do teu jeito de tocar pandeiro? Porque ele é o mestre do pandeiro com workshops e tudo o mais.
Ana
"É, foi um prazer tocar com ele."
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O Marcos Suzano é autoridade máxima em pandeiro no Brasil.
Ana
"E no mundo também. Ele faz muito workshop no Japão. O Suzano não é um mero cidadão, ele não está aí ouvindo sininho. Foi muito bacana trabalhar com ele. É um cara super-carinhoso. Eu fiz o arranjo da música e toquei o pandeiro pra ele, e ele respeitou todas as convenções. Eu humildemente pedi para ele fazer aquele funk ("Armazém"), que foi idéia minha. E ele, em momento algum, como autoridade máxima, disse alguma coisa. Eu fiquei super-lisonjeada de ter o Suzano nessa faixa. Fiquei super-feliz de tocar com ele. Espero tê-lo em todos os meus discos."

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"E a história da música "Garganta" ter ido parar como tema da novela (1999) das 20h da TV Globo?
Ana
"Quando a demo chegou até a gravadora, eles fizeram várias cópias para o Arnaldo Antunes, para vários compositores e também para o Mariozinho Rocha, que já tinha gostado das músicas. Quando ele recebeu o CD pronto e ouviu de novo, ele achou que "Garganta" tinha tudo a ver com a personagem da Debora Bloch. E quando eu estive com ele, ele me disse que teve dificuldade em escolher as músicas. Eu fiquei muito contente porque
isso era música para muita gente. Uma música minha veiculada num quarto canal de televisão do mundo. Várias pessoas me conhecem hoje pelo fato de eu ter tocado na novela. Eu não acho isso ruim, eu acho isso bom. É música para muita gente.

Eu não acredito nas pessoas que querem mostrar que fizeram um disco para críticos e para formadores de opinião só, e que não tem nenhum interesse em ganhar dinheiro e vender. Dinheiro é a mola do mundo. Lógico que é tudo conseqüência, ninguém faz "disco pra vender" – vender é a conseqüência. Mas, se vender, que ótimo! Ainda mais que "Garganta" tem um quê de Nordeste, ela tem uma convenção e um improviso de voz super-louco no meio – e como é que isso foi parar numa novela? Fico contente. Modéstia à parte, eu acho uma música bacana com um arranjo bacana. E não é só coisa ruim que tem que passar na TV, coisa boa também."


A canção que tocou na hora certa
Veja letra cifrada de 'Garganta'
Maio de 1999
por Bel Carrilho Martins
borage@uol.com.br

Ana Carolina, 24, com cinco anos de carreira, está se destacando pela inclusão de sua gravação da música "Garganta" (Totonho Villeroy), na novela "Andando nas Nuvens" da Rede Globo. Foi essa gravação que possibilitou a Ana Carolina a revelação ao grande público, algo que ela chama de "amplificação do artista".
Enquanto a mídia impressa compara sua voz grave com a voz das consagradas cantoras Cássia Eller e Zélia Duncan, ela vai logo afirmando que em sua formação musical bebeu mesmo foi na fonte da música brasileira antiga. Segue no tom quase revoltado das canções que gravou em seu CD de estréia, que vai das inéditas de "Agora ou Nunca" de
Arnaldo Antunes, "O Melhor de Mim" de Frejat em parceira com Paulinho Moska e Dulce Quental e "Perder Tempo com Você" de Alvin L., passando pelas tradicionais "Retrato em Branco e Preto"(Chico Buarque/Tom Jobim) e Beatriz (Chico Buarque/Edu Lobo), até a colagem definitiva dos azulejos do mosaico musical que sua garganta revelou. Com vocês, Ana Carolina.

Quais são suas influências musicais?
Sempre gostei das canções antigas de Cartola, Geraldo Pereira e Lupicínio Rodrigues. Atualmente tenho ouvido o CD do Farofa Carioca e do Otto. Gosto do Pedro Camargo Mariano e da voz de Ed Motta, como cantor. Gosto muito de Maria Bethânia, porque parece que sua interpretação é maior que a vida, mas eu procuro estar antenada com tudo que está acontecendo nessa virada de milênio, até ouvir CDs de pessoas desconhecidas.
Como surgiu a música "Garganta"?
Essa música o Totonho fez pra mim num show em Belo Horizonte. Ele estava lá assistindo e a gente não se conhecia. Ele foi escrevendo a letra durante show e no final me procurou e disse: eu fiz essa letra pra você e acho que tem tudo a ver. Na hora eu fiquei muito emocionada e dois dias depois ele me mandou a fita com letra e música e desde então não parei mais de cantar.
O que você achou sobre a escolha dessa música para tema de novela?
Achei interessante porque não é uma música que fala de amor, como é comum em tema de novela. É uma música mais revoltada.
Como o público está te recebendo depois da repercussão de sua música?
Tenho recebido muitos telefonemas e cartas de pessoas interessadas na minha música. São músicos, jovens de vinte e poucos anos, pessoas que dizem ter a cara do disco. É um público diversificado mais ou menos como o meu liqüidificador que mistura balada com um quase tango moderno, músicas inéditas com músicas como "Retrato e Branco e Preto" e "Beatriz".
Você tem algum esquema para compor?
Componho de maneira mais intuitiva do que racional, a música vem naturalmente, sem pensar. Por exemplo a música "Armazém" eu fiz só no pandeiro, à capela mesmo. Foi como aquela coisa da caixa de fósforo junto com a melodia, depois os acordes foram saindo.
Como você está sentindo sua entrada na mídia?
Bem, eu já tinha uma carreira antes e havia tocado em várias cidades. Eu ia nas rádios, as vezes gravava lá mesmo uma música em MD e a rádio veiculava na programação, enfim, as pessoas me conheciam mas não era uma coisa muito grande. Agora eu vejo que gravar com uma multinacional funciona como um amplificador. As pessoas passam a te conhecer em maiores proporções e pra mim a resposta do público está sendo muito boa.

Ana Carolina - BMG 1. Tô Saindo (Totonho Villeroy)
2. Alguém Me Disse (Evaldo Gouveia/Jair Amorim)
3. Nada Pra Mim (John)
4. Trancado (Ana Carolina)
5. Armazém (Ana Carolina)
6. Garganta (Totonho Villeroy)- Veja letra cifrada
7. A Canção Tocou na Hora Errada (Ana Carolina)
8. Tudo Bem (Lulu Santos)
9. Agora ou Nunca (Arnaldo Antunes)
10. Melhor de Mim (Frejat/Paulinho Moska/Dulce Quental)
11. Retrato em Branco e Preto (Chico Buarque/Tom Jobim)
12. Perder Tempo com Você (Alvin L.)
13. avesso dos Ponteiros (Ana Carolina)
14. Beatriz (Chico Buarque/Edu Lobo),
15. Tô Caindo Fora (Ana Carolina/Marilda Ladeira/Fernando Barreira)

Fonte: Revista Borage